Especialistas alertaram durante audiência pública na Câmara dos Deputados que os preços praticados pelos novos medicamentos injetáveis de ação prolongada contra HIV/Aids tornam inviável sua incorporação pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Medicamentos de Alta Eficácia com Custos Proibitivos
Os dois principais medicamentos disponíveis no mercado - cabotegravir e lenacapravir - apresentam custos anuais que variam entre US$ 22 mil e US$ 27 mil por paciente nos Estados Unidos. No Brasil, o cabotegravir já registrado pela Anvisa custa R$ 4 mil por dose em farmácias privadas, com aplicação bimestral.
A advogada da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids, Susana van der Ploeg, destacou que estudos indicam custos de produção entre US$ 25 e US$ 120, valores muito inferiores aos praticados atualmente. "O maior obstáculo não é científico nem tecnológico, é político", afirmou durante o debate.
Quebra de Patentes Como Solução
A deputada Erika Kokay (PT-DF), autora do pedido de audiência, defendeu negociações com o governo para viabilizar a quebra de patentes caso necessário. "Não é possível submeter uma conquista para a saúde e a vida das pessoas ao lucro", declarou a parlamentar.
Segundo Andrea Boccardi Vidarte, diretora do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids no Brasil, o Ministério da Saúde mantém negociações com a farmacêutica Gilead para produção em laboratórios públicos, mas a empresa ainda não informou os preços pretendidos para o mercado brasileiro.
Impacto na Prevenção
Os dados apresentados mostram que São Paulo registrou redução de 54% nos casos de HIV após adoção da terapia preventiva oral pelo SUS. Contudo, a modalidade atual apresenta taxa de abandono de 35% devido à necessidade de uso diário. Os novos medicamentos injetáveis, com aplicação semestral ou bimestral, poderiam resolver essa questão de adesão ao tratamento.