Hoje a advocacia brasileira completa 199 anos. O que se exige de nós advogados mudou mais nos últimos cinco do que nos 194 anteriores.

11/08/2026 12:03 Priscila Pinheiro
Hoje a advocacia brasileira completa 199 anos. O que se exige de nós advogados mudou mais nos últimos cinco do que nos 194 anteriores.

Por Priscila Pinheiro

Em 11 de agosto de 1827, uma lei imperial de redação curta criou "dous Cursos de sciencias juridicas e sociaes, um na cidade de S. Paulo e outro na de Olinda". Era o começo do ensino jurídico no Brasil. É por isso que hoje é o nosso dia.

Cento e noventa e nove anos depois, o Quadro da Advocacia da OAB registra mais de 1,5 milhão de advogadas e advogados inscritos — sendo 784 mil mulheres, maioria da classe.

Antes de qualquer análise de mercado, uma palavra que precisa ser dita sem constrangimento: essa profissão sustenta o equilíbrio da sociedade.

Não existe justiça sem quem a provoque. Cada garantia constitucional que parece óbvia só é obrigatória porque, em algum lugar do país, um advogado sustentou uma tese, enfrentou um tribunal e transformou um direito abstrato em uma decisão concreta na vida de alguém. O advogado é a peça que impede que a força vire regra. É indispensável à administração da justiça não por gentileza do texto legal, mas porque, sem ele, não há contraditório — e sem contraditório, não há justiça.

Isso é o que celebramos hoje. Agora vamos falar do que quase ninguém vai dizer nas mensagens de parabéns.

A técnica virou pré-requisito. Deixou de ser diferencial.

Há uma geração, ser um excelente técnico bastava para construir uma carreira sólida. Hoje não basta mais — e a conta desse descompasso já aparece nos números.

O estudo demográfico da advocacia mostra que 52% dos inscritos têm menos de dez anos de carreira, que a maioria da classe recebe menos de cinco salários mínimos por mês e que apenas 4,93% ganham acima de vinte salários mínimos. Não é um problema de competência jurídica. O Brasil forma advogados tecnicamente muito bons.

É um problema de tudo aquilo que a faculdade não ensinou: precificar, gerir caixa, estruturar processos internos, liderar equipe, prospectar dentro dos limites do Provimento 205/2021, ler um DRE, entender o uso da tecnologia.

Ninguém teve uma cadeira de gestão. Ninguém teve uma cadeira de marketing jurídico. Ninguém teve uma cadeira de tecnologia aplicada.

E, ainda assim, o mercado cobra essas competências todos os dias — de quem abriu o próprio escritório e de quem quer crescer dentro de um.

Isso não é motivo para lamento. É diagnóstico. E diagnóstico existe para orientar decisão: o que você não aprendeu na graduação, você aprende agora, como profissional, com a mesma disciplina com que aprendeu processo civil.

A automação não é a ameaça. É o que devolve o tempo.

Aqui mora o maior mal-entendido da profissão neste momento.

Levantamento conduzido por seis seccionais da OAB, com mais de 1.800 profissionais, mostra que 77% já usam inteligência artificial generativa ao menos uma vez por semana — eram 55% no ano anterior. Entre eles, 76% usam para elaborar peças, 59% para pesquisa jurídica, 56% para revisão de contratos. E o resultado: 91% perceberam melhora na qualidade técnica do trabalho e 84% relataram economia de tempo.

Repare no dado que realmente importa: tempo.

Automação não substitui o advogado. Ela devolve as horas que a operação sequestrou. As horas que hoje se perdem em tarefa repetitiva, em conferência manual, em copiar dados de um sistema para outro, em refazer a mesma petição pela vigésima vez.

E a pergunta que separa quem cresce de quem apenas sobrevive é esta: o que você faz com o tempo que a tecnologia te devolve?

Se a resposta for "pegar mais processos", você apenas trocou de esteira. Se a resposta for estar presente para o cliente, você mudou de patamar.

O fator humano é o ativo que nenhuma máquina replica

Quem procura um advogado quase nunca está no melhor dia da vida. É uma empresa em risco, uma família em ruptura, um patrimônio ameaçado, uma reputação em jogo. Por trás de todo número de processo existe alguém que não dorme direito há semanas.

Nenhuma automação escuta. Nenhum modelo de linguagem lê o que não foi dito na reunião. Nenhuma ferramenta percebe que o cliente aceitou o acordo com a voz trêmula e insegura.

Esse é o nosso diferencial — e ele não está em risco. Está subutilizado, porque a maioria de nós gasta o dia inteiro fazendo trabalho que uma máquina faria melhor, e chega ao atendimento sem tempo, sem energia e sem presença.

A tecnologia não compete com a empatia. Ela nos possibilita aplicar a empatia, ao liberar a nossa agenda.

Advogado que entende isso não usa IA só para produzir mais peças. Usa para chegar à reunião com o cliente tendo lido o caso inteiro, com o cenário mapeado e com tempo para explicar em português — e não em juridiquês — e com empatia sobre o que vai acontecer com a vida daquela pessoa.

O que desejo à advocacia hoje

Que a gente pare de disputar quem é mais tradicional ou mais moderno.

A advocacia dos próximos 199 anos vai pertencer a quem juntar as duas coisas: rigor técnico com competência de gestão, tecnologia de ponta com escuta humana, eficiência com ética.

Ninguém precisa escolher entre ser bom advogado e ser bom gestor. Precisa parar de tratar a segunda parte como se fosse opcional.

Parabéns a cada colega que sustenta uma tese difícil, que atende bem mesmo cansado, que se reinventa aos quarenta anos de carreira e ao que acabou de receber a carteira.

Feliz Dia do Advogado. Que a tecnologia cuide da tarefa — e que nos sobre tempo para cuidar de nossos clientes como a atenção que eles merecem.

Priscila Pinheiro

Advogada, Palestrante, CEO do Grupo Adali e Presidente da Comissão de Marketing Jurídico da OAB/Limeira-SP. Formada em Administração de Empresas e Direito, com pós-graduação em Direito do Trabalho, é uma das vozes na intersecção entre Direito, Gestão e o uso da Tecnologia e para escala na advocacia.
Siga no Instagram: @priscilapinheiro.adv