Há exatos 40 anos, em 15 de março de 1985, o Brasil virava uma página crucial de sua história com a posse de José Sarney como presidente da República, encerrando oficialmente 21 anos de ditadura militar. O que deveria ser a consagração de Tancredo Neves, eleito indiretamente pelo colégio eleitoral, transformou-se em um dos episódios mais tensos da história política brasileira.
A noite mais longa da República
Na véspera da posse, Tancredo Neves foi internado para uma cirurgia intestinal, gerando uma crise constitucional sem precedentes. A Constituição em vigor era omissa quanto à sucessão presidencial em caso de impedimento do presidente eleito antes da posse. Após intensos debates que se estenderam pela madrugada do dia 15 - chamada por muitos de "a noite mais longa da República" - decidiu-se pela posse de Sarney.
"Fizeram reuniões contra, 'o Sarney não deve assumir', fizeram outras reuniões que eu devia assumir, fizeram reuniões no Congresso, e às três horas da manhã lavraram uma ata dizendo que eu devia assumir a presidência da República", relatou o próprio Sarney em entrevista ao programa Roda Viva em 2009.
A última tentativa militar
O processo de transição quase sofreu um retrocesso quando o ministro do Exército, Walter Pires, tentou impedir a posse de Sarney. Segundo relato do próprio ex-presidente, o ministro da Casa Civil, Leitão de Abreu, contou que Walter Pires pretendia "acionar o dispositivo militar". A situação só foi contornada quando Leitão informou que os atos de exoneração dos ministros, que deveriam sair no dia seguinte, haviam sido publicados antecipadamente.
O paradoxo da transição democrática
A posse de Sarney representava um paradoxo para a redemocratização brasileira. Enquanto Tancredo Neves simbolizava a oposição à ditadura, tendo sido figura central na campanha das Diretas Já, Sarney era remanescente da Arena, partido que dava sustentação ao regime militar. Essa contradição ilustra bem o caráter negociado da transição democrática brasileira.
A própria aliança entre Tancredo e Sarney foi estratégica para vencer no colégio eleitoral. Mesmo com o crescimento do PMDB em 1982, os partidos de oposição ainda eram minoria no Congresso. A chapa Tancredo-Sarney venceu com 480 votos contra 180 dados a Paulo Maluf, candidato apoiado pelos militares.

Os desafios da Nova República
O governo Sarney (1985-1990) enfrentou enormes desafios econômicos. O "milagre econômico" da década de 1970 deixou como herança uma dívida externa explosiva e inflação galopante, que chegou a 224% em 1984. Nos anos seguintes, o Brasil vivenciou diversos pacotes econômicos e trocou de moeda quatro vezes em tentativas de estabilização.
Apesar das dificuldades, o período foi marcado por avanços democráticos significativos, como a maior liberdade de organização sindical e política. O principal legado, no entanto, foi a convocação da Assembleia Nacional Constituinte, que culminou na promulgação da Constituição de 1988, marco definitivo da redemocratização brasileira.