O recesso acabou. Mas ele existiu de verdade para você?

O calendário marca o fim de janeiro e, oficialmente, as engrenagens do Judiciário voltam a girar em potência máxima. Para muitos, é o "início real" de 2026. Mas, entre o café gelado e o primeiro acesso ao PJe, fica a pergunta incômoda: você realmente descansou ou apenas mudou o local de onde respondia mensagens no WhatsApp?

Historicamente, lutamos pelo recesso forense e pela suspensão dos prazos processuais que o sucedem, garantindo um período de descanso para a classe como quem luta por uma cláusula pétrea. Antes da Lei 13.105/2015, o advogado era um profissional sem direito a pausa; um profissional que vivia para cumprir prazos e ignorava a sua própria biologia em nome da urgência do cliente. Conquistamos a pausa legislativa, mas ainda não conquistamos a pausa mental.

A Hipocrisia do "Direito ao Descanso"

É irônico — e quase trágico — observar advogados trabalhistas que sustentam teses brilhantes sobre o burnout de bancários e o descanso semanal remunerado de empregados, enquanto, no dia 2 de janeiro, advogados de diversas áreas do Direito estavam peticionando "urgências" que poderiam esperar ou realizando atendimentos não urgentes de seus clientes.

Vivemos a cultura da disponibilidade absoluta. O "recesso" tornou-se, para muitos, uma ilusão: os prazos processuais param, mas a ansiedade, a gestão do escritório e a pressão por faturamento continuam sem pausa. Se você não desligou, o recesso foi apenas uma suspensão de prazos, não uma recuperação de seu ativo mais valioso: sua saúde.

2026: O Ano da Advocacia de Alta Performance (e Baixo Esgotamento)

Como CEO do Grupo Adali, lido diariamente com métricas. E os dados não mentem: quem não pausa comete um grande erro. O erro que gera prejuízos, a perda de um lead importante ou a gestão de equipe ineficiente são sintomas diretos de uma mente exausta.

2026 será um ano de grandes desafios para a advocacia. A Inteligência Artificial não é mais uma promessa, é a base da operação. Quem estiver cansado demais para aprender a usar a tecnologia a seu favor será engolido por quem usa o tempo para pensar estrategicamente.

Além da revolução tecnológica, o ano de 2026 traz mudanças consideráveis em relação à maneira de prospectar novos clientes. O seu próximo grande cliente não está batendo de porta em porta; ele está no Google, no Instagram, no TikTok e no LinkedIn, buscando não apenas um advogado, mas uma autoridade que fale com propriedade e lhe dê confiança sobre a área que ele precisa contratar. Se você voltou do recesso exausto, não terá a energia criativa necessária para produzir o conteúdo que o Provimento 205/2021 da OAB permite: aquele que educa, informa e, consequentemente, gera autoridade.

Estar no digital não é mais um "diferencial", é a sobrevivência do seu faturamento. Sem uma presença estratégica e humanizada nas redes, seu escritório é invisível para a maior parte do mercado que decide o fechamento de um contrato pelo celular. O retorno do recesso não deve ser um mergulho no caos, mas uma virada de chave. Se você sente que "não parou", o erro pode estar na sua gestão.

Como transformar o "voltei" em "vou me organizar":

  • Auditoria de Processos: Se você trabalhou no recesso para "dar conta", você tem um problema de processo, não de volume. É hora de automatizar o que é repetitivo. Use a tecnologia a seu favor.

  • Cultura de Gestão: Substitua o "sentimento de urgência" por OKRs claros. O que o seu escritório quer alcançar neste primeiro trimestre?

  • Autorize-se a Parar: O descanso real precisa ser planejado. Se você não agendar suas pausas de 2026 agora, o operacional vai agendá-las por você na forma de uma licença médica.

Conclusão: O convite à consciência

A advocacia é uma maratona, não um sprint de 100 metros. Se você atravessou o recesso forense com o celular na mão e o coração acelerado, você não está sendo "dedicado", está sendo ineficiente com a própria vida.

O Judiciário voltou. Os prazos voltaram. Mas a minha provocação para você neste início de ano na Central do Direito é outra: mais do que descansar quando a lei manda, você já considerou tirar um tempo para poder agir de forma mais estratégica e crescer considerando todo o seu potencial?

O sucesso é formado por pessoas competentes e determinadas, mas, acima de tudo, por pessoas que sabem a direção certa que devem seguir.

Bom retorno. Vamos ao trabalho — com estratégia e inteligência. 2026 está só começando e temos um ano de possibilidades pela frente. Sucesso, colegas!

Priscila Pinheiro

Advogada, Presidente da Comissão de Marketing Jurídico da OAB/Limeira-SP e CEO do Grupo Adali. Formada em Administração de Empresas e Direito, com pós-graduação em Direito do Trabalho, é uma das vozes na intersecção entre Direito, Gestão, Marketing Jurídico Ético e o uso da tecnologia para escala na advocacia. Siga no Instagram: @priscilapinheiro.adv